quarta-feira, 8 de março de 2017

O deita gatos






 
 
Encontrei este pequeno postal, datado do início do século XX, com a imagem de uma criança, cuja profissão era a de "deitar gatos". Para quem é de idade mais recente, não recorda estas antigas profissões, que lançavam os seus pregões pelas ruas da cidade, na ânsia de arranjarem algum trabalhinho. Este jovem poder-se-ia incluir nesse rol de pequenos/grandes trabalhadores. 
 
"Gatear tudo que fosse loiça partida em cacos, era tarefa do “deita-gatos”, um servidor ambulante (...)
Nesse prolongar de vida de muitas peças de barro e de faiança (...) tinha papel importante o deita-gatos (...) 
O nosso homem começava por unir os cacos e, por cada “gato” (um pedaço de arame terminado por duas pequenas garras) a colocar, marcar os dois pontos onde fazer um furo com a ajuda de um broquim primitivo (...) Juntos e colados todos os cacos era a vez de, com a arte que a experiência sempre dá, introduzir as garras dos “gatos” e fixá-los de modo a ficarem bem apertados". Estas palavras pertencem ao Dr.Galopim de Carvalho, que as publicou no facebook, juntamente com algumas imagens.
A sociedade de consumo desenfreada que hoje vivemos, não dá valor ao que ficou, gateado, partido e colado, mas guardado com tanto zelo. Felizmente que alguns, quiçá muitos, sabem que essas peças representam uma vida de sacrifício, na qual o aforro e a poupança estavam presentes. Pelos comentários que li - bastantes - o carinho e cuidado com as peças "gateadas", herdadas dos avós - colocadas em lugar de destaque nas salas, demonstram que algumas mentalidades talvez estejam a mudar.

 
 
Podemos apreciar bem o espírito de economia patente nesta imagem. Nada menos que treze gatos para as fracturas sinuosas que nos é dado observar. Embora a serventia da palangana já não fosse a ideal, continuava em uso, para outras funções sempre presentes e necessárias nas casas simples dos seus proprietários. Nada se deitava fora, tudo se aproveitava.




 
A palangana ratinho, vista de frente, mostra uma cercadura com um ramo florido, entrelaçada com filamentos a sugerir a pluma de pavão. Ao centro, uma paisagem enche o covo. Torna-se difícil dizer se foi pintada originalmente, ou acrescentada posteriormente. As dúvidas são pertinentes, pois a temática foge aos cânones decorativos deste tipo de faiança. Aparte esta incerteza e as mazelas que sofreu, é uma peça bonita e cheia de cor.
 
 
Ó rapaz que deita gatos
Deitas gatos só em pratos,
Só em tachos e tigelas,
Ou deitas gatos também
Nas almas e no que há nelas
Que as quebra em mal e em bem?
Ah, se, por qualquer magia,
As tuas artes subissem
Àquela melhor  mestria
De pôr gatos que se vissem
No que sonho e no que sou!
Então...Qual então! Que tratos
Dei a um poema que surgiu!
Só consertas, só pões gatos
No inteiro que se partiu.
O partido nasceu
Nem tu consertas nem eu.

Fernando Pessoa, 1933

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 



5 comentários:

  1. Gosto muito das peças assim recuperadas, pelos seus primeiros donos, no seu tempo próprio, quando ainda, na sua condição de peças utilitárias, eram recuperadas e reutilizadas, com um grande sentido de poupança.
    Das profissões ambulantes recordo-me unicamente dos amoladores. Dos deita gatos não tenho memória, mas perante peças gateadas, sempre me questionei sobre a técnica e as ferramentas usadas e eis que, a Ivete nos presenteia com este belíssimo post, onde fico com respostas para as minhas perguntas. A palangana que mostra é lindíssima e a sua decoração central fora de comum em nada a desfavorece. Um muito obrigada pela partilha dos seus conhecimentos e uma boa semana.

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  2. Maria Paula

    Agradeço as suas simpáticas palavras. Lembro-me de outras profissões. As pessoas calcorreavam as ruas de Lisboa, principalmente nos bairros menos afortunados, onde os habitantes ainda tinham aquele espírito de poupança que tinham trazido consigo das suas terras de origem. Recordo, especialmente, o "pitrolino" pois era assim que se anunciava, com a sua carroça onde vendia azeite e petróleo e, também, comprava ferro-velho.
    Quanto ao "deita gatos", foi uma sorte ter encontrado à venda, na net, este exemplar tão elucidativo.

    Cumprimentos
    if

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  3. Aqui em Lisboa não me recordo de ver estes "gateadores", pois na época não vivia na capital.
    A minha família é de uma aldeia da região próximo de Pombal, e recordo, nos anos 60, quando estive em Portugal durante algum tempo, de ver estes profissionais a percorrerem as veredas e pequenos caminhos que iam de aldeia em aldeia, mas não me lembro de fossem tão jovens assim.
    Eram homens que faziam várias tarefas ligadas aos metais, afiavam utensílios, arranjavam guarda-chuvas (quem hoje se lembraria de o mandar fazer?) e colocavam gatos na loiça.
    Os ganchos de metal eram aquecidos para se dilatarem, colocados na loiça e, posteriormente, quando arrefeciam, apertavam os cacos permitindo que ficassem perfeitamente unidos e estanques, pois, para este efeito colocava-se finalmente uma cola (não sei qual a constituição, mas adivinho que fosse à base de produtos animais).
    E a minha avó tinha sempre algo para remendar, sobretudo alguidares.
    Enfim, tempos que, temo, serão difíceis de regressar.
    Ainda tenho uma destas "brocas" rudimentares, à qual acho muita graça.
    Cumprimentos para vós.
    Manel

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Ivete
    A imagem do menino deita-gatos é tocante. Que idade teria? 8 anos no máximo!? E no entanto já tinha profissão. Faz-me sempre impressão estas imagens de crianças arrancadas precocemente à infância e este postal é um testemunho eloquente das condições de vida do passado. Ao mesmo tempo, os gatos das nossas faianças parecem que ganham um rosto e talvez alguns deles tenham sido feitos pelas mãos de crianças.

    Realmente a pintura do centro não parece combinar muito com a orla do prato. Será que a pintura foi feita posteriormente por alguém que quis embelezar o prato?

    Ao longo da história humana, igrejas, palácios, jóias, e peças de mobiliário são transformados, adaptados ao gosto da moda vigente. Talvez tenha acontecido o mesmo a este prato. No entanto a ingenuidade da paisagem não vai vale mal com a decoração quase modernista dos ratinhos.

    Um abraço

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